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Blog do Tolengo na mídia Nesta segunda (04/08) às 22 horas na rádio bandeirantes – AM 840/FM 90.9 – confira a entrevista de uns dos realizadores deste blog, participando do programa ‘fanáticos por futebol’. Escrito por Blog do Tolengo às 20h21
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Por dica de Kadj Oman – colunista deste blog -, entrei nesse site para ver alguns números interessantes sobre os públicos. Quem gosta de estatística é um prato cheio: http://paginas.terra.com.br/
Número de vezes que cada estádio teve públicos maiores do que 100.000 pagantes
Escrito por Blog do Tolengo às 13h48
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Quando o futebol, a política e os conflitos se misturam em Israel David Goldblatt* O futebol chegou tarde a Jerusalém. Os judeus europeus o jogavam na planície costeira antes de 1917, mas nem as pequenas comunidades judaicas do oeste de Jerusalém e nem seus vizinhos árabes em Al Quds se interessavam pela bola. O esporte chegou com o exército britânico e logo se envolveu nos conflitos amargos da cidade. Em 1929, um menino judeu chutou uma bola em um jardim árabe. Na briga que se seguiu, o menino foi morto e seu funeral foi o estopim para grandes tumultos. Aparentemente inabalados pela capacidade do esporte de gerar conflito, os judeus de Jerusalém assumiram a organização do futebol no início dos anos 30, e as equipes da cidade se dividiram segundo as mesmas linhas políticas que caracterizavam outros aspectos do movimento sionista: o Hapoel na esquerda, o Maccabi no centro, e o Beitar na direita. As amargas divisões locais de Jerusalém -entre judeus asquenazes e sefarditas, o Partido Trabalhista e o Harut (o antecessor do Likud), o establishment e os excluídos- se desenrolavam nas divisões inferiores entre o Hapoel e o Beitar. Uma carteirinha do Hapoel era a chave para obter empregos e acesso aos serviços públicos, mas era possível encontrar vários detentores de carteirinhas do Hapoel passando seu fim de semana nas arquibancadas do Beitar. Havia árabes ali também, algo impossível de imaginar atualmente. O destino do Beitar, como o de toda Jerusalém, mudou com a guerra dos seis dias de 1967. Os israelenses tomaram todo o leste de Jerusalém e expandiram as fronteiras municipais até a Cisjordânia. De uma cidade provincial, Jerusalém assumiu o manto de "capital eterna" de Israel. Na temporada seguinte o Beitar chegou à primeira divisão pela primeira vez. Passada outra década, o Beitar estava estabelecido no topo, enquanto o Likud chegava ao poder sob Menachem Begin, um ex-chefe do Irgun. As cidadelas do futebol e do establishment político foram rompidas, e o Beitar, apesar de toda sua marginalidade autodeclarada, se tornou um time popular. Membros dos gabinetes do Likud, de Benjamin Netanyahu a Ehud Olmert, podiam ser vistos nas arquibancadas. O comboio amarelo de carros e ônibus percorria a via estreita ao longo do corredor de Jerusalém em dias de partida, enquanto torcedores vinham de todo o país. Quarenta anos depois da guerra dos seis dias, Jerusalém e seu futebol se transformaram. Sob o prefeito Teddy Kollek, o Partido Trabalhista manteve no poder municipal até o início dos anos 90. Mas os filhos e filhas da esquerda já tinham partido em massa, enquanto os eleitores da direita permaneceram, se mudando para as novas áreas dormitórios que a municipalidade estabeleceu nas periferias da cidade. Os ultra-ortodoxos, atualmente com acesso ao Muro das Lamentações, se multiplicaram enormemente. De fato, o número deles e a disciplina de voto são de tal dimensão que nem o Likud e nem o Partido Trabalhista se darão ao trabalho de apresentar um candidato a prefeito em novembro contra o candidato ultra-ortodoxo. Com a ascensão do Beitar, o Hapoel Jerusalem entrou em declínio, caindo pelas tabelas. O clima nas arquibancadas se tornou tão ruim, e os proprietários tão implacáveis, que no ano passado os remanescentes da esquerda esportiva de Jerusalém tomaram a importante decisão de romper com o Hapoel e formar seu próprio clube. Mais de 3 mil pessoas ingressaram no projeto e, agora, disputando a quarta divisão, o Hapoel Katamon é o último bastião da esquerda secular judaica em Jerusalém. No anel superior das arquibancadas é possível encontrar o que chamam de Casa dos Lordes -os escreventes, professores e capitalistas de risco. Abaixo ficam seus filhos e seus amigos, os etíopes que o clube tem atraído, os taxistas e suas famílias. Os jogos do Hapoel no Teddy Stadium são os melhor freqüentados das divisões inferiores, sua causa é justa e suas energias são perseverantes, mas eles parecem sitiados na vasta arena de pedra. Mas, mesmo recentemente, o Beitar nem sempre teve um caminho fácil. Como o Hapoel, o clube teve uma série de donos irracionais que o levaram à beira da falência, e ele teve que contar com suas conexões políticas para socorrê-lo. Desde a assinatura dos acordos de Oslo no início dos anos 90, os torcedores do Beitar se tornaram cada vez mais militantes antiárabes e pró-assentamentos. Há cinco anos, esta massa fervente de raiva e descontentamento ganhou forma organizada com a criação da torcida La Familia, os ultras que torciam para o Beitar Jerusalem que importaram as técnicas aperfeiçoadas no futebol italiano. Mas o Beitar ainda não conseguia chegar ao topo do futebol israelense. A velha guarda, como o Maccabi Haifa e o Maccabi Tel Aviv, mantiveram sua vantagem, continuando a estimular o senso de marginalidade da torcida do Beitar. O que finalmente levou o Beitar ao topo do futebol israelense foi a chegada de Arcadi Gaydamak, um bilionário russo-israelense que é dono do time desde 2005. Um homem de muitos passaportes, ele geralmente viaja com seu diplomático angolano. Alegações de lavagem de dinheiro e venda de armas pairam sobre ele na França e em outros lugares. Desde sua chegada a Israel, ele comprou empresas da mídia, de alimentos e supermercados. O Beitar foi uma de suas primeiras aquisições, e após o dinheiro de Gaydamak ter comprado grande parte da seleção nacional e estrangeiros seletos, o Beitar conquistou o campeonato no ano passado. Não contente em sacudir o futebol israelense, Gaydamak mergulhou a ponta do pé na política do país. Durante a segunda guerra no Líbano em 2006, ele estabeleceu uma cidade de tendas em uma praia do Mediterrâneo para a qual os moradores das cidades de fronteira sob ataque podiam fugir. Ele fez o mesmo em Sderot no sul, quando a cidade passou a sofrer ataques persistentes de foguetes Qassam de Gaza. Então, em meados de 2007, ele criou um partido político, o Justiça Social, e declarou sua intenção de concorrer a prefeito de Jerusalém neste ano e ao Knesset em 2009. Nós chegamos para conhecer Guy Israeli, o "chefão" do La Familia, no campo de treinamento do Beitar, no sul de Jerusalém. Guy está atrasado, e fomos recebidos em seu lugar por um colega mais jovem, que se esgueirou ao redor, fumou e disparou fogos de artifício em nós. Quando Guy chegou, nós nos sentamos na arquibancada e ele nos contou que iniciou a La Familia para gerar apoio ao Beitar, e que agora ele controla milhares de torcedores por meio de uma pirâmide de subalternos e celulares. A La Familia, ele disse, lhe custou seu casamento. Sua esposa, também membro, no final lhe pediu para escolher -e ele escolheu a La Familia. "Esta é minha família, minha casa, tudo." "Os jogos de futebol contra Nazaré parecem uma guerra?", eu perguntei. "O governo espera que o futebol promova a paz. Mas nós não queremos paz. Nós queremos guerra. Há uma semana um árabe matou oito estudantes em um yeshivá. Então nós nos vingaremos. Nós queremos vingança, nós queremos sangue." "Como terminará?" "Não é possível obter paz sem guerra. Se você tem um cachorro, você o ama, mas se ele morder você, você bate nele. É o mesmo aqui com os árabes -se ele mata você, você tem que matá-lo. Então eles dizem para você, ok, não faremos mais nada. E então você faz as pazes." "Você acha que esse dia chegará?" "Não." Há outros lados do Beitar. Eu conheci o urbano David Frenkel, um engenheiro de software em uma nova empresa pontocom que era suficientemente obcecado pelo Beitar para segui-lo até as Ilhas Faroë e atravessar a Europa de carro para assistir a 20 minutos de um jogo em Wimbledon. Mas a chegada de Gaydamak e o aumento do racismo acabou com seu fascínio. E há o gentil Jochi, que vem dos distritos operários de Jerusalém Ocidental e não podia torcer para nenhum outro exceto o Beitar, o motivo para estar tentando contra-atacar: gravando os cantos racistas, os postando na Internet, denunciando os ultras. Mas eu senti que o amor dele está acabando. Guy Israeli não é o Beitar, e o Beitar não é o futebol israelense, nem um medidor da opinião pública israelense. Mas na ausência de outras vozes na multidão, eu me pergunto se ele está se movendo mais próximo ao centro de gravidade. *David Goldblatt é o autor de "The Ball is Round: A Global History of Football". *Tradução:* George El Khouri Andolfato Escrito por Blog do Tolengo às 20h21
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A Euro que pouco não aparece Por Davi Agathocles A torcida da Croácia na Euro-2008 é um capitulo a parte. Logo no primeiro jogo me chamou atenção o comentarista da TV informar que a transmissão não queria focalizar a torcida em questão. Na ocasião eu não sabia o motivo, visto que a explicação vaga que eles são ‘fanáticos’, nada explica. Após algumas pesquisa descobri a presença de neo-nazistas entre eles o que me deixou desanimado. Mas logo, por intermédio do querido Toro, vi a imagem reproduzida acima que me deixou mais curioso. Esta edição da Euro-2008 se destaca pela cobertura televisiva ao melhor estilo big brother, estádio modernos e lotados, além das belas cidades. Mas qual o preço disso? É muito comum os narradores brasileiros esbravejarem que no Brasil não é assim. Que nossos estádios e nossas cidades poderiam ser iguais ao ‘de lá’ e outras coisas inerentes do complexo de inferioridade que essas pessoas carregam. O que é lamentável. Tirante isso, essa relação entre grupos neo-nazistas fazendo criticas aos rumos do futebol moderno é fruto de uma realidade que por mais mascarada pelo desenvolvimento econômico ainda esta lá. Analisando mais afinco nota-se que esses grupos a solta por lá são fruto de uma geração que viu seus valores tornados líquidos, suprimidos por um turbilhão de marcas e desejos impostos pelo mercado. São a própria antítese do mercado inclusivo. Uma geração perdida, que vê no futebol e nas ideologias ‘esquecidas’ um dos poucos pilares de sustentação de uma segurança que não existe mais. Se as antigas ruas, casas, brinquedos não existem. Onde tudo se torna descartável, ali onde há um elemento não-moderno é onde eles ficam bandeiras. Seja o futebol antigo ou o orgulho nacional. Não admira que seja num jogo de futebol que esses dois segmentos apareçam unidos. Escrito por Blog do Tolengo às 22h38
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Muito além de críticas Por Davi Agathocles Faz tempo que eu não escrevo aqui. Relaxo meu, assumo. Mas prometo voltar a todo vapor. Então para aqueles que estavam me cobrando, podem ficar tranqüilos. Para pegar o ritmo novamente, quero comentar de um assunto que já esteve em pauta no blog, mas que sempre volta: Richarlyson. Este tema veio-me a cabeça após assistir a vitória do tricolor no Morumbi. O leitor mais informado, pode argumentar que ele nem jogou esta partida, então, por que ele seria citado? Eu já adianto ele foi... E muito! Num determinado momento da partida, uma parte da torcida – vamos deixar isso bem claro – começou a xingar o jogador. Ficou claro que não era apenas uma manifestação de uma torcida insatisfeita com o desempenho do jogador. Ele passa por uma fase ruim, é fato, mas não é só isso. O que pode ser? Complexo. Pode ser uma boa resposta. A torcida do São Paulo passa sempre, numa caso patológico, por uma eterna necessidade de afirmação. Basta lembrar das vezes que o time ganhando suas partidas, a torcida entoava gritos de provocação a rivais, só para mostrar o quanto “bons” nós somos. Além disso, tem o fato do bambi. Ele expressa em si, todo o preconceito contra os homossexuais. Isso cria uma necessidade absurda da torcida em se afirmar como ‘machões’, seja pela violência, seja pela hostilização. É comum se ouvir nas arquibancadas os gritos de “tirem esse viado daí”. Richarlyson, por causa dos epsódios que envolveram seu nome, carrega o peso e é o exemplo desse defeito social. Dagoberto ao final do jogo de sábado teve seu nome gritado pela torcida. Pô, você deve estar louco. O que o Dagol tem a ver com o Richarlyson? Na verdade o exemplo com relação a esse jogador pode ilustrar bem esse ponto. Pense rápido, qual dos dois jogadores em questão foi mais importante para o São Paulo em 2007? O volante/ala/zagueiro com certeza, não é? Ao assumir a responsabilidade de ser o substituto ao lado de Hernanes da melhor dupla de volantes do Brasil, até então, ele desempenhou impecavelmente seu papel. Então, voltemos ao atacante. O ‘craque’ comprado por uma boa quantia é ídolo da torcida. Vai entender...
São dois pesos, duas medidas. Se o atacante errar um passe, perder uma bola, chutar para fora – coisa que faz na maioria das vezes – a torcida vai apoiá-lo. Mas se o volante/ala errar, o mundo cai sobre ele. Não me admira que o mesmo sempre esteja numa eterna sinuca de bico. Parece jogar no limite entre o céu e o inferno. É simbólica toda essa situação. Quantos Richarlysons nós não temos por ai? Pessoas que tem suas competências colocadas em xeque por motivos preconceituosos e racistas. Sem poder errar, sem poderem ser o que são: humanos. E assim sendo, suscetíveis a jornadas boas e ruins dentro daquilo que fazem.
Enfim, eu queria falar muito mais coisas. É um assunto complicado. Talvez alguém queira fazer uma tese de graduação ou mestrado em cima do caso Richarlyson seria interessante. Afinal, como em diversos casos, o futebol nos mostra que há algo de errado na nossa sociedade e que a gente tem passado batido por isso. Escrito por Blog do Tolengo às 00h30
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Amigos, sábado agora, 31/05, o Autônomos FC estreará pelos Jogos da Cidade 2008 jogando contra o Hermanos de Pelé, time de amigos e um já tradicional rival. Para este jogo, o Auto vem se preparando há quase um mês. Muito melhor estruturado do que em 2007, o Rubro-Negro de Vila Anastácio chega com moral para este confronto: no único jogo entre os dois times no ano, vitória autônoma por 7 x 3. Ano passado, o time caiu na primeira fase dos Jogos da Cidade ao perder para o Curuzu do Alto da Lapa duas vezes por 4 x 0. Apesar disso, no fim do segundo jogo, a pequena torcida autônoma cantou como se o time estivesse vencendo, superando inclusive a bateria da torcida rival e supreendendo a todos. Isso deu forças para o Auto no ano que se seguiu. De um amontoado de jogadores que perdia todos os jogos, surgiu um time. Um time que tem um grito homenageando a torcida ao entrar em campo, no lugar dos tradicionais "um por todos, todos por um" ou "1, 2, 3 Autônomos": "vamos, vamos... vamos, vamos... vamos, vamos... torcida autônoma!". Justamente pra lembrar daquele dia de 23 de junho em 2007, eternizado na história do Auto. Assim sendo, o Autônomos FC convida a todos os simpatizantes do futebol e da autogestão a comparecer neste sábado ao CDM do Jaguaré, também conhecido como CAJU, localizado à Rua Floresto Bandecchi, 480, uma travessa da Av. Presidente Altino, em Osasco. A partida contra o Hermanos de Pelé tem seu início marcado para as 13h e o time prepara uma bonita festa, com bandeiras, fogos de artifício e bobinas. Uma verdadeira manifestação do futebol varzeano, que é o que restou de mais autêntico no mundo do futebol brasileiro. Venha torcer pelo Auto! Sábado - 13h Escrito por Blog do Tolengo às 12h38
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Corinthians x São Caetano ou A mini-epopéia urbana de um torcedor É terça-feira, dia de Corinthians em campo, e nesses dias eu acordo ansioso, já que isso significa que eu estarei lá - sempre com um sacrifício ou outro, mas nunca esperando o que estava por vir neste 6 de maio. O jogo é no Morumbi e tem seu iníco marcado para as nove horas. São quase sete da noite quando saio de casa, no centro, munido de agasalho, boina, bilhete único e, é claro, os ingressos - são seis. Não, não sou cambista, só tenho a sorte de morar ao lado do posto de venda mais vazio da cidade, o que invariavelmente faz com que eu compre ingresso pros irmãos. Às sete e quinze, pego o ônibus, não o de sempre que para na porta do estádio, mas um que me deixa na Francisco Morato. Mais longe, tem que andar um pouquinho, mas não dá as voltas que o outro dá. Entre um sacrifício e outro para os meus R$ 2,30, escolho o que vai me permitir estar no estádio a tempo. Mesmo pensando que não deveria ser assim e lembrando de quando a Erundina colocava ônibus grátis nos dias de jogo. O ônibus começa sua (ou melhor, minha) via crucis pela Rua da Consolação. Até que vamos rápido, graças ao "corredor da Marta", e em questão de quinze minutos atingimos a Avenida Rebouças. É aí que o terror toma conta do semblante até então feliz e cantante de todos os corinthianos do ônibus: o trânsito de São Paulo estava em dia de trânsito de São Paulo. No meio do caos, recebo uma ligação: um dos irmãos e sua companheira teve um ataque de pedra nos rins e estava no hospital. Dois ingressos iriam sobrar, e eu precisaria vendê-los antes de entrar. O que já estava feio ficava ainda pior: um amigo no hospital e tempo ainda mais apertado. Minha boca balbuciava: "maldito estádio de merda". O relógio aponta oito horas da noite quando o ônibus atinge a altura da Avenida Brigadeiro Faria Lima. São agora vinte minutos parado nos mesmos cinquenta metros que antecedem o ponto. As camisas do Corinthians olham pela janela e sofrem, angustiadas. Até que a ansiedade típica dos momentos que antecedem uma batalha fala mais alto e faz com que o motorista abra a porta. Todos descem, e eu vou junto, meio que sem saber porque - àquela altura, já tinha ligado para os donos de três dos outros cinco ingressos pra avisar que iria me atrasar. Corro junto à "família" e vejo todos entrando em um ônibus na Faria Lima. Entro também, sem olhar o letreiro, e descubro que ele seguirá pela avenida e pegará a Cidade Jardim. Fico feliz, porque a Faria Lima anda, e as esperanças de chegar ao jogo a tempo voltam. Por pouco tempo. No cruzamento com a Cidade Jardim, a imensidão de veículos parados volta. E junto com ela os olhares de terror e a ansiedade. São exatamente oito e vinte e seis quando a massa alvinegra faz com que mais um motorista abra as portas do ônibus fora do ponto. Desço de novo e começo a correr pela Cidade Jardim. Penso em me adiantar ao trânsito e pegar um ônibus que esteja parado mais à frente. Chego ao último ponto antes da ponte que atravessa a Marginal e o ônibus mais próximo é o mesmo do qual desci, lá atrás. Melhor continuar correndo. Subo a ponte e estou do outro lado da Marginal, o que para paulistanos acostumados a ir a jogos no Morumbi significa mais de meio caminho andado - ou, no meu caso, corrido. Nenhum ônibus no horizonte próximo, à frente ou às costas. Sigo minha maratona, agora acompanhado por dois outros desesperados. Àquela altura meu cérebro já começava a explicar para os músculos que era hora de superação. Martelava o nome de antigos guerreiros do suor para mantê-lo correndo - E, ZE, QUI-EL! E, ZE, QUI-EL! Ú, IL, SON-MANO! Ú, IL, SON-MANO!. E eu pegava a Avenida dos Tajuras a todo gás para entrar à esquerda na Rua Engenheiro Oscar Americano. Pelas ruas, carros com bandeirões, hinos e cantos de estádio tocando ou sendo entoados. "Vai, Corinthians", gritavam para mim, e eu respondia "vai, carona", com o polegar estendido, na esperança de que "família" e "irmão" não fossem só termos vazios, que vencessem o individualismo intrínseco ao automóvel particular. Em vão. Alcanço a Avenida Morumbi e começo a acreditar que "sim, é possível" - ou "si, se puede", como diria um famoso lema hermano. Totalmente perdido por aqueles lados cheios de mansões e casarões, pergunto ao fiscal da CET se devo continuar reto ou quebrar à direita. Sigo suas orientações e quebro à direita: estava na Avenida Giovanni Gronchi. Enquanto corro pela Praça Vinícus de Moraes, cheia de placas "Adidas - patrocinando o seu cooper" ou coisa do tipo, percebo que meus colegas de maratona desistiram - ou pelo menos pararam de correr. Não os vejo mais nem ao longe, e fico feliz por ser magro e ter aptidão biológica para provas de longa distância. Parece que este ano finalmente o sonho da São Silvestre será alcançado - sem meu pai (com quem sonhei junto) presente, mas com ele em mente ao lado de Ezequiel, Wilson Mano, Marcelo, Giba e o deus Neto. Alcanço a Praça Santos Coimbra e já posso escutar o estádio em polvorosa. E é aí que a casa cai - literalmente: meu cérebro se distrai um pouco com o chamado da Fiel e faz o corpo tropeçar no cimento irregular da calçada. Vou ao chão, com uma dor incrível tomando conta de meu joelho esquerdo. Puta que o pariu, corri da Faria Lima até ali e a 500 metros vou tropeçar? Não era justo, não mesmo. Num legar cheio de "praças de rico", não dava pra ter mergulhado na grama? Pelo menos na grama eu poderia me contorcer pedindo falta. Enfim, não tenho tempo pra reclamar, então em frente, pernas, em frente, pulmão! Desculpa aí, joelho, mas quase 50 mil pessoas me esperam. A adrenalina supera a dor e corro manquitolando até a Praça Roberto Gomes pedrosa, ponto de encontro. O relógio marca oito e cinquenta e três quando finalmente paro de correr. Era um recorde, eu tinha certeza. Mas cadê os "irmãos"? Ligo pra eles e estão chegando. Vieram de carro e eu cheguei mais rápido correndo. O trânsito de São Paulo estava em dia de trânsito de São Paulo. São oito e cinquenta e seis quando finalmente os encontro. Faltam quatro minutos para o jogo e ainda preciso vender os ingressos. Tento ficar próximo à entrada da fila da bilheteria, mas a concorrência com os cambistas é demais. Nos dividimos procurando alguém sem ingresso, mas os olhos de todos só conseguem focar o portão de entrada. Então desisto de vendê-los e vamos pra fila. São já nove e quinze, e até ali, a julgar pela (falta de) explosão da torcida, o jogo está morno. Ao entrarmos na fila, chamada assim apenas por conveniência, a polícia resolve "organizá-la" - e por isso entende-se dar porrada pelos lados para que todos se espremam junto ao portão de ferro. Enquanto isso, lá na frente, libera-se a entrada de dez em dez pessoas, o que é um absurdo. Como se a fila fosse diminuir daquele jeito, ou as pessoas se acalmar - ao contrário, o jogo corre e o sangue ferve ainda mais. No meio disso tudo, dou sorte: o torcedor atrás de mim descobre que perdeu seu ingresso e eu vendo um dos sobrantes pra ele - ia morrer com um só na mão. A Fiel, da fila, começa a cantar "soooou, corinthiano, maloqueiro e sofredor". Penso, sou mesmo, mas não naquela situação. Sou sofredor ao correr da Faria Lima ao Morumbi pra assistir ao jogo ou ao passar 90 minutos esperando por um golzinho chorado, não por servir de gado pra polícia. Ali não era hora daquela música, era hora de "vaaai, Corinthians, vai, não pára de lutaaar, vai torcida Fiel, saravá São Jorge, ele vai nos ajudar". Ou então da marchinha, "contra todo ditador que no Timão quiser mandar, a Gaviões nasceu pra poder reivindicar, os direitos da Fiel que paga ingresso sem parar". Ou ainda da nova música, inspirada no Rei Roberto Carlos (o da perna biônica, não o da meia lacônica): "não pára, não pára não páraaa... não pára, não pára não páraaa... não pára, não pára não pára o meu Coringãããão...". Mas infelizmente o povo acostumou a ser gado, no metrô, no ônibus, no estádio, então cada um se apertava o mais longe que podia dos cacetetes e torcia praquilo andar logo. São nove e trinta no meu relógio quando finalmente entramos na rampa de acesso às arquibancadas azuis.Após a revista policial (afinal, torcedor é tudo bandido mesmo), corremos para as catracas, quando percebo um grupo aglutinado ao lado delas com semblante triste. Haviam comprado ingressos falsos. Digo que tenho um sobrando, e eles resolvem comprá-lo - era muita sorte. Era. Porque nisso voltam dois dos três companheiros putos da vida, dizendo que o ingresso que eu dei pra eles era de arquibancada vermelha e não de azul. Só um tinha passado, e esperava ansioso pela gente depois das catracas sem entender nada. Puta merda, como eu não percebi que a desgraçada do Ingresso Fácil tinha me dado arquibancadas vermelhas no meio das azuis? Eu tinha explicitamente pedido só azuis, que caralho. Arranjo rapidamente uma explicação-consolo no fato de que no dia em que comprei a fila estava grande, e tinha um clima tenso, já que Gaviões e Independente se aglomeravam para comprar ingressos para os respectivos jogos de seus times, e na hora em que finalmente peguei os meus olhei só se não eram do São Paulo por engano, nem conferi o setor. Olho meu ingresso e ele também é da vermelha. Temos três vermelhas e uma azul. Vendo a azul e seguimos nós três pra vermelha, do outro lado do estádio. Nosso companheiro fica sozinho na azul. À essa altura, dar a volta no estádio era o menor dos problemas. O primeiro tempo já era mesmo, então vamos caminhando até o outro lado, não sem pressa, mas sem correr. As ruas ao redor do Morumbi já estão bem esvaziadas, praticamente todos já entraram. Compramos um amendoim, porque dentro do estádio só paga R$ 5,00 num lanche minúsculo quem é muito trouxa, e seguimos até a vermelha. Passada a catraca e a ida ao banheiro, estamos à boca das arquibancadas. Impossível entrar. Eram nove e quarenta e sete da noite. O jeito era esperar os dois minutinhos que faltavam até o intervalo. Feito isso, damos sorte: ao alcançar os degraus da arquibancada, encontramos logo três lugares vagos. O segundo tempo corre feliz, com alguns sustos e algumas raivas (morre, Acosta!), mas no final a vitória é nossa. Com, como não podia deixar de ser, gol aos 43 minutos - aí sim, sofredores com orgulho. A volta pra casa é marcada pela descoberta de que a menina que estava conosco perdeu R$ 20,00 (estavam no bolso, assim como as mãos dela, e ao tirá-las pra comemorar os gols deve ter jogado a nota pro alto sem querer), o que rendeu boas piadas, e pela raiva do Morumbi. Não é compreensível como a Fifa acha que dá pra ter Copa do Mundo aqui. Onde o trânsito vai melhorar até 2014? E a polícia? E as entradas apertadas e poucas do Morumbi? Ah, já sei, vão estabelecer um rodízio: aqueles que tiverem renda mensal inferior a R$ 50.000,00 não poderão circular em dias de jogo. É mais fácil mudar a Copa pro Haiti. Chego em casa por volta de meia-noite e quarenta, de carona, já que o trânsito da volta do jogo era quase o mesmo da ida. Entro manquitolando, com a dor do joelho impactado com o cimento da calçada finalmente superando a adrenalina, e a mulher pergunta: - Que que aconteceu? Teve briga? - Senta, que a história é longa. Burn, Panetone, Burn. Escrito por Blog do Tolengo às 10h14
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DESABAFO DE UM SAUDOSO Por Fernando Toro Que saudades do futebol, barbaridade! Daquela sensação indescritível dos domingos colados em um radinho de pilha qualquer, dos jogos duros e disputados com o coração à frente de qualquer importância econômica. Dos estádios que reluziam uma cor acinzentada, porque a arquibancada ainda era um espaço aberto ao homem que se fodia toda a semana e precisa daquilo para sobreviver no mundo moderno. O futebol vai sumindo, e eu sinto como se estivesse perdendo um ente muito próximo e querido. Perturbam-me todos os dias as imagens que rechearam minha infância e parte da adolescência. Até que tudo começou a desmoronar, e eu, desde o início, percebia o que estava acontecendo. Odiava o que estava invadindo aquele universo mágico, que pra mim era quase perfeito, onde as derrotas e as vitórias faziam parte do todo, e você sabia lidar com isso. O futebol fazia homens de verdade, e acentuava a busca por si mesmo. Hoje ele é o maior, mais lucrativo e mais eficiente campo de formação de macacos de circo, adestrados e asseados, e divulgação de um meio de vida consumista e insuportável para os que sentem a bomba funcionando. O negócio é que não se trata de choro infantil, o treco é patológico. Está destruindo tudo aquilo em que acreditamos, e nos deixando cada vez mais putos, e de veias abertas perante o descaso humano ao confrontar tamanha tragédia. As bandas de black metal norueguesas não sabem como é difícil a vida até passarem um mês aqui nessas bandas. E o futebol moderno sempre teve as portas do terceiro mundo escancaradas na imensa costa leste do continente novo. A ignorância tomou conta de vez, e sinto falta da certeza que um jogador saberia conceber uma entrevista e formular duas frases com sentido. Sinto falta da certeza de que você sempre veria uma partida decente, onde as pelotas não pareceriam queimar os pés dos atletas, como acontece hoje em dia. Mesmo aquelas partidas ruins (e havia uma porção delas) soavam engraçadas, porque havia um punhado de senhores tentando crescer como indivíduos e praticando aquilo que pregavam – algo tão raro nesta era desgraçada. Saudades do futebol ao vivo pela televisão, às quintas-feiras e sábados, onde não necessariamente os times grandes ocupavam a tela, e dos árbitros que defendiam a regra do jogo com ódio e fervor, porque amavam o esporte tanto quanto outros atores envolvidos no espetáculo. Hoje, eles não passam de ignorantes, sábios apenas de que dificilmente terão lugar no “mundo livre e competitivo” e conseguem, através do desejo das federações prostituídas e empresários manipuladores, um palco onde desfilam, duas horas por semana, uma suprema e inatingível autoridade – esta filha da puta autoridade que guia os comuns processos judiciais esportivos, que refletem muitas vezes a falta de colhões dos jogadores modernos. Todos querem privilégios, exigências. Nilmar parece um travesti, e a mídia impõe a opinião de que ele está certo, vivendo como em uma “prisão” e querendo se libertar – mártir da revolução da chuteira cor-de-rosa e macia. Esse é o lado que assusta pela surpresa, e sempre achamos que já vimos de tudo. Por outro lado, tenho ótimas lembranças, como a dos fortes times do interior e de seus jogadores raçudos. Havia um respeito às cidades pequenas, uma noção instantânea de que naquele retângulo descampado e bem aparado (às vezes esburacado, claro) jazia eternamente uma chance de devolver as injustiças da centralização social, por uma hora e meia que fosse. Ou simplesmente derrotar os badalados times da capital, como o fez a Internacional de Kita, Lê, Tato e Gilberto Costa. Saudades infernais dos campeonatos de juniores, que sempre antecediam as partidas principais; em especial o futebol se ressente dos garotos que não sonhavam com o velho continente. Somente invadia seus corações um Morumbi, ou um Pacaembu lotado de gente urrando seu nome após um gol, ou um carrinho bem desferido (e há melhor satisfação do que essa para um jogador de futebol?). Sinto falta das palavras poderosas que sumiram do futebol: a honra, o dever... Por isso eu adoro os “300 de Esparta”, desde que foi lançada a coletânea em quadrinhos, em 1999. A troca do seu prazer, pela anestesia das dores de outrem, coincide com aquilo que o futebol me ensinou desde 1985, e antes disso também através das leituras e pesquisas. Não há nada mais digno do que uma pessoa atingir esse estágio, e no futebol eram freqüentes os casos de sacrifício. Alguns argumentam que os tempos mudam. Mas o que parece ter acontecido no futebol, ultrapassa os limites do bom senso e abre um abismo gigantesco entre a realidade social e a realidade financeira de um jogador. O respeito não pode mudar com os tempos, e o suor continua molhado até hoje. Da mesma maneira, não pode secar-se o choro no futebol. Hoje, é mais fácil enfrentar uma derrota humilhante com sorrisos cheios de dentes, porque, afinal de contas “amigo”, futebol é pra se divertir, dizem eles. As pessoas são contaminadas pelo veneno do futebol mercantil, e esquecem de que a violência, a defesa, a luta não são ações negativas. Elas apenas refletem o sentimento de amor a uma jaqueta; o respeito a uma história de esforço, uma saga de uma família, muitas vezes. E “quando todas as alternativas se esgotam, a violência é justificada”. Resta alguma pacífica alternativa para romper com a tirania do futebol no segundo milênio? O futebol não é um teatro, o futebol é nosso – parafraseando meu amigo Malavita. Pouquíssimos jogadores têm isso em mente. Mas deveriam, porque, em teoria ao menos, ninguém leva uma pessoa forçosamente a ser um jogador. É uma escolha pessoal e muitas vezes natural, e ela tem que vir acompanhada da consciência de que este esporte é violento, viril e está tão longe quanto à compaixão de um traído pelo seu traidor, de ser apenas um passatempo ou uma atividade física recomendada por um médico. E exatamente por ser algo tão áspero é que, através dos séculos, apareceram tantos nomes geniais – modestamente acredito piamente que supere até a música, literatura, pintura, o teatro, cinema ou qualquer outra atividade cultural, mesmo que a maioria delas nos permeie desde o início dos tempos, enquanto que o futebol exista, como conhecemos, há pouco mais do que cento e quarenta anos. O caminho para o super-homem, algo que é “muito mais do que a vida e a morte”, segundo Sir Bill Shankly. Dessa maneira pessoas comuns calçam um par de chuteiras, e podem realizar algo que nos trará satisfação por toda a vida. Citei o espetacular batedores de faltas e lançador Gilberto Costa – um dos vários “Meninos da Vila”, de 78 - e logo me lembrei do que mais sinto falta no futebol atual (e sei, ao ler o livro “Febre de Bola”, de Nick Hornby, que não estou sozinho neste saudosismo): os meio campistas, legítimos camisas dez. Aqueles que regiam o jogo como uma criança controla sua pipa nos céus. Lembro de um Corinthians e Santos, em 1988, pelas semifinais do Paulista, e sempre brilha na minha alma um senhor chamado Mendonça – que em 1981 marcou um golaço pelo Botafogo carioca, nas semifinais do Brasileiro, no mesmo Morumbi que sete anos depois faria ecoar um “ohhh”, a cada toque de primeira, ou lançamento primoroso do, então, já veterano atleta. Eu não tinha idade pra entender profundamente o jogo em si, mas sabia que aquela pessoa era intocável, quase fictícia. Ele faz parte da lista de jogadores que, mesmo que demonstrassem alguma deficiência aqui ou ali, não precisavam de mais nada para estar no mais alto patamar dos craques, juntamente com Pita, ‘Pepe’ Signori, Paul Gascoine, Glenn Hoddle, Dennis Bergkamp, Brian Laudrup, Luc Nilis, Helmut Haller, Luiz Suarez, Ralf Edstrom, Enzo Francescoli, Roberto Mancini, Fernando Redondo, Giovanni... Todos parcialmente ocultos devido à falta ou excesso de personalidade, uma contusão mais séria, ou simplesmente má sorte. Mas nenhum desses devia nada a ninguém em campo – deuses da bola! Os craques, os toques geniais, uma notável virada de campo com um chute de sessenta metros, hoje comemorados como um gol quando aparecem de tão escassos - sua ausência lastima e machuca de verdade, ó futebol. Gosto de refrescar minha memória até com os momentos que, para um garoto de seis anos, pareciam tensos e perigosos: os corre-corres nas arquibancadas (freqüentes, pra não dizer obrigatórios), acompanhados sempre do corpo do meu velho me envolvendo em proteção. Lembro de que eu sentia certa graça naquilo, porque dificilmente a violência chegava até onde estávamos, e eu sabia que nada de mais grave aconteceria, ao mesmo tempo em que centenas de torcedores gritavam para que fugíssemos. Ou seja, eu não ainda era corrompido nem mesmo pelo tesão das brigas e emboscadas aos visitantes (ou escapar delas quando saímos de nosso campo), tampouco por nenhuma filosofia de vida babaca. Ainda assim não me incomodava aquele tremor todo. Eu sabia que fazia parte do todo, e me excitava com aquilo. Eu havia escolhido ser um torcedor de futebol, não de automobilismo. Logo, sabia que não podia reclamar dos reveses da situação. Os rojões que pareciam perder a gravidade e completar a atmosfera, e faziam de um jogo qualquer uma barulhenta guerra de nervos. As torcidas, as bandeiras, as rampas dos estádios cortadas pelos toscos sacos de papel picados, que eram lavados por dois ou três brutamontes devido ao peso. A liberdade de falar o que quiser, quando quiser e pra quem quiser. Não era anarquia, nem de longe. Era festa, celebração do ódio acumulado. Saudades insuportáveis do gosto do guaraná Brahma, que sempre adocicava minha boca nos intervalos, quando meu velho voltava, a duras penas, entre os torcedores desengonçados e mal acomodados, com três copos de papel cheios do líquido que também mataria a sede do meu irmão. Não pelo gosto em si do refrigerante. Mas aquilo fazia parte do dia de futebol da minha época, e hoje os produtos são vendidos em embalagens higiênicas e guardanapos de pano, tudo frescura de empresas monopolizadoras. Parecem aqueles lanches vendidos nos jogos de beisebol nos Estados Unidos, que os torcedores vão passando, de mão em mão, até a comida chegar ao comprador. Aliás, tudo está cada vez mais parecendo o “american way of life”. As pessoas que antes freqüentavam os campos eram diferentes. As conversas eram menos enjoativas, simples, seus ídolos não levavam medalhas do amor próprio, dessas que talham os peitos com a letra inicial de seus nomes idiotas. Até o grito de gol era, indiscutivelmente, mais emocionante, carnal, raivoso e sangrento. É fácil entender; eram gritos direcionados a homens naturais, que transmitiam essa energia pro povo e dele recebiam todo o amor possível de se cultivar de volta ao gramado. Das Copas do Mundo que vi quando pequeno, nem quero lembrar muito. Emoção extrema assim, misturada com o efeito Diadema em excesso, não vai me fazer muito bem. A verdade é que minha geração viu o derradeiro suspiro do espírito antigo, e, por isso, eu instintivamente odeio praticamente tudo no futebol moderno. Vamos lá: as bolas leves e coloridas; as transmissões cinematográficas; a descaracterização do futebol na América do Sul, e o desaparecimento dos esquadrões que sobreviviam e se agigantavam de suas raízes (o futebol uruguaio que o diga); os jogadores que não ficam mais de pé no gramado, e se barbeiam duas vezes ao dia; os centros de compras, chamados de novas arenas; a invasão de camisetas européias nas ruas sul-americanas, e a obsessiva audiência aos torneios de lá, exatamente quando eles perderam qualidade; os programas de futebol na televisão, que não falam mais de futebol; o fim das peneiras nos clubes; a Lei Pelé, que fez os jogadores pensarem que são trabalhadores, “como qualquer outro”, e “têm direitos”, mesmo que na folha salarial deles possa constar uma quantia de duzentos mil reais mensais, ou mais – o jogador é um empregado de uma religião, onde a infidelidade não pode existir e o banco de reservas é a penitência àqueles que não rezarem com vontade! Sem essa mentalidade o futebol vai, paulatinamente, perdendo toda a força e emoção que tinha na época em que os europeus jogam na Europa. Já havia alguns ‘convidados’ ocasionais, e que tinham mesmo que merecer chegar lá pelo futebol provado em sua terra natal. Mais cada país tinha a identidade estampada em seus times, e isso, em especial nos campeonatos continentais, conferia as partidas uma sensação absoluta de comprometimento para com aqueles que mais se importam - os torcedores. Meus domingos eram divididos entre molho de tomate espirrado na cara toda, enquanto meus olhos esbugalhados assistiam um ‘tampinha’ driblar até a sombra dos marcadores carniceiros, e certo Marco ‘fuzilar’ arqueiros, ao som endiabrado de Sílvio Luís. E depois sou culpado de ser amargo! Até algumas temporadas atrás, eu ainda me arriscava a ver um jogo, ou seguir as tabelas das grandes Ligas. Mas não consigo mais fazê-lo. Simplesmente a essência lá não existe mais. Dia desses, nem mesmo a um jogo em Anfield eu tive estômago suficiente pra sobreviver mais do que trinta segundos, antes de voltar a trocar de canal. É quase o limite do fim. Confesso que ainda não abandonei por completo o futebol. Vez ou outra aparece um jogo como a final do Europeu, em 2005. E meu coração agoniza e eu sinto uma esperança burra. Embora naquele jogaço eu gritasse até minha garanta sangrar, sei que o valor de um gol de carrinho do Biro-Biro é muito maior do que o gol equalizador de Xabi Alonso. Não pelo que o gol representou, ou trouxe pro seus respectivos times. Mas porque a essência que mantém vivo o jogo, naufraga junto com o nível dos seus atores. Inevitavelmente, continuam a nascer jogadores como Lugano, Juninho Pernambucano, Gerrard, Totti, Riquelme e Valdívia, e meus olhos colam na televisão. O problema é que, vagarosamente, esses craques vão se tornando exceções na regra da mediocridade, exatamente o inverso do que eu via há duas décadas. E essa proporcionalidade vale para tudo no cenário futebolístico. Mas tudo isso é lixo, não importa. É superficial demais perante as barreiras que nos cercam de verdade, e contra as quais temos que lutar todos os jogos, em especial aqui na capital mundial do combate ao torcedor do futebol, São Paulo. A principal dor que sinto hoje é não poder torcer mais como podia antes, essa é a dor na pele. “Um estádio sem faixas e bandeiras, é como um prato vazio, ou um céu sem estrelas”, dizia um trapo qualquer. A ditadura, a censura, os preços de NBA, com regulamentos e tabelas mais incompetentes do que no Torneo Apertura de Honduras, a imposição da soberania irresponsável invadindo a paixão de cada criança. Repressão é o grande soldado, defensor das finanças. Sinto falta do futebol sem medo de tudo e de todos. Tenho uma terrível tendência de enxergar sempre o lado negativo das coisas, e no futebol isso faz com que cada pequena mudança nas regras, nas transmissões e, claro, nos uniformes simbolize uma momentânea visão do futuro, e ele sempre parece sombrio, aterrador e vazio. As regras podem e devem amadurecer com o tempo, não somente no esporte. Mas as mudanças não podem deixar para trás um funeral de emoções, como um estádio demolido sem outro motivo, senão acumular capitais. Isso realmente incomoda aqueles que desfrutaram de algo que lhes pertencia mais até do que sua própria vida. Cuidado, senhores engravatados e cheios de boa vontade... Logo, logo, tomaremos tudo de volta, e a saudade será de vocês em relação à mordomia luxuosa da qual, pateticamente, gozam. Prefiro morrer primeiro, a acreditar que tamanha ignorância possa vencer nossa criatividade. Hasta! Escrito por Blog do Tolengo às 22h20
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APELIDOS E SÍMBOLOS Por Fernando Toro Irrompeu-me um pensamento que seria impossível, como torcedor do Clube Atlético Juventus, descrever porque considero o apelido “Moleque Travesso” o mais belo dentre todos os clubes de futebol no Brasil, sem parecer parcial. Afinal de contas, defender meu time é uma doença que não quero curar. É uma perturbadora obsessão esportiva que carrego comigo não engolir argumentos furados e vazios, daqueles que apenas pegam carona na desconfiável fluência das unanimidades. Outra loucura minha em relação ao futebol, é que sinto um incompreensível prazer em misturar fanatismo com imparcialidade. Há nela uma gélida força destruidora do senso comum. Como, por exemplo, poderia um juventino calar um são-paulino em uma conversa de boteco, sem usar de força bruta? Não poderia me gabar com ele da escola de craques que nasceram na Mooca, ou dos títulos que vi o Juventus conquistar. Sei que o time dele ganhou bem mais e que diversos gênios vestiram aquele uniforme, e de nada adiantaria esbravejar mais alto apenas para me fazer ser ouvido. Mas posso, tranquilamente, me encher de orgulho por saber que meu time voltou para a Primeira Divisão Paulista jogando futebol, e não através de acordos fraudulentos, como eles o fizeram. Há sempre um espaço adequado para que um alienado descubra informações úteis. Tenho pena de jornalista que faz pose de sério em frente às câmeras e diz: “Não quero revelar meu time de coração, é antiético”. O cidadão, assim, assume sua incapacidade de discernir a verdade da mentira, e mais, revela uma triste tendência de defender um só lado, mesmo quando ele estiver errado. Estes nunca foram jornalistas, deviam estar cuidando de algum jardim no Nepal, pro bem de todos. Ser imparcial é ser honesto e decente, nada mais. Eliminando o risco de não sê-lo, sei que a tarefa fica ainda mais difícil agora. São tantas esquadras, e tantos bons apelidos que o Juventus terá, mais uma vez, que superar mais adversidades do que a maioria para sair campeão. E não podemos fugir das asperezas da vida. Pego o maior rival para começar, o Nacional da Barra Funda. Acho que é o único time do planeta que tem mais apelidos do que troféus. O “Naça” não desfila suas listras na elite boleira desde 1959, quando a trajetória do clube, que fora fundado por funcionários das linhas férreas paulistanas, ainda correspondia ao apelido de “Ferroviários”. Já tentei avisar algum publicitário do clube para que seja feita uma troca do apelido para Maria-Fumaça, em solidariedade a velha locomotiva que desapareceu dos trilhos - enquanto o clube sumia dos estádios. Mas devido ao meu passado turbulento naquele charco, não fui ouvido. Essa curiosa união entre o apelido e a história do clube, ou a total falta dela, me chamou a atenção que temos algo de muito genuíno. O “Moleque Travesso” não é somente a síntese da seqüência juventina de vitórias desacreditadas (mal-educadas, às vezes, por que não?) ou então uma referência a nossa torcida, recheada com tipos que mereceriam o mesmo rótulo que o time. Ele também se encaixa a própria disposição dos times na região da capital bandeirante: dentre os três grandes aqui sediados, outros de médio porte e vários pequenos, há este guri infernal, com seu fardamento único, suas sardas e seu estilingue ameaçador, que sempre quer entrar na festa dos adultos e transformá-la em bagunça - e assim fazemos por décadas. Às vezes tenho delírios, imaginando que se o futebol paulista fosse a “Vila do Chaves”, seguramente a rua Javari seria a pensão de número 8: perdida num cenário já repleto de atores mais conhecidos e casas mais visitadas, mas que reserva um local caloroso e enigmático para acolher o garoto mais abusado dali. Essa mesma atmosfera bairrista é encontrada em diversos lugares pelo mundo. Mas na maioria dos casos, como em Madureira, por exemplo, o apelido remete a outras características do time. O “Tricolor Suburbano” realmente está às margens do centro do Rio de Janeiro, e leva suas três cores consigo, mas não há nada que indique as suas façanhas em campo - não surge o efeito que tem o apelido juventino. Já em Madrid, com o Rayo Vallecano, a junção desses dois elementos é muito harmoniosa, com a abelha simbolizando também algo imperceptível aos olhos da maioria, mas com uma atitude desafiadora. Porém, devo ignorar os estrangeiros nesta comparação. Além do número volumoso de times, há muitos apelidos tão geniais quanto o do Juve, que prefiro deixar empatada essa disputa – ou no mínimo postergá-la. Apesar de que mesmo o “Funebrero”, um dos mais atraentes apelidos que conheço, imprime certa ausência, já que o cemitério homônimo do time fica em um bairro central da cidade, enquanto que a sede do Chacarita Juniors fica no subúrbio de Buenos Aires. Neste amistoso internacional, nosso Moleque sairia ganhando. Claro que o mesmo não aconteceria contra os “Hammers”, do West Ham United, ou o “Millonario”, do River Plate. Mas é aqui, na cidade de São Paulo, dentre vizinhos, que a comparação ganha mais valor. E fica impossível não lembrar de cara do time que fez parte da gênesis das travessuras grenás. Naquele ano de 1931, o desconhecido time da Mooca ainda não era O Moleque, apesar de ter vencido a Segunda Divisão dois anos antes. Mas ao bater o grande campeão da época, em plena Fazendinha, recebeu o apelido que ostenta até hoje. Através dos tempos, o Corinthians foi chamado de “Alvinegro do Parque São Jorge”, “Coringão”, “Mosqueteiro” e “Timão”. Eu não gostaria que o apelido oficial do Juve fosse “Grená da Mooca”, tampouco “Juventão”. Mas o que agrada a gregos... E no caso do Mosqueteiro, a história do nome, hoje, é tão fora de contexto que até mesmo a torcida, inconscientemente ou não, parece ignorá-lo. Sobrou o Timão, que é o mais popular e fácil de ser mal interpretado. Seguramente, há muita gente que imagina se tratar de um aumentativo da palavra ‘time’, o que lhes traria uma sensação maior de poder inclusive. Mas o Timão nada mais é do que o instrumento de navegação encontrado nos meios de transporte marítimos. Nos anos pós-fundação, este clube dedicava boa parte de suas atividades desportivas às práticas aquáticas (o remo em especial). Portanto, quando os atuais torcedores corintianos gritam essa palavra para incentivar seu time de futebol, há uma bizarra ponte de ligação, mesmo que longínqua, com outro esporte. Menos mal que o esporte secundário deles não era o vôlei, ou o tênis. O algodão e a pizza são dois símbolos que fazem parte do passado da Mooca. Mas para levá-los como apelido, o time teria que sofrer com eles uma interação muito forte em algum ponto da história. E isso, a meu ver, não aconteceu com o Corinthians e o timão das embarcações. Seguindo pela Marginal, encontramos a Portuguesa de Desportos, conhecida também como “Lusa”. Não acho um apelido ruim, mas nós temos um apelido semelhante a esse, já citado algumas vezes neste texto – Juve. Trata-se de uma abreviatura comum em nomes próprios (como Edu, Carol) e tê-lo como apelido principal soa simplório demais para um clube de futebol. Na industrial região do ABC, o Santo André carrega uma bela homenagem à história da cidade, porém com um pequeno deslize, que reflete uma megalomania doentia no Brasil. Além dos estádios com finais “ão” que pipocam neste território exótico, o criador deste apelido talvez amasse tanto a família Ramalho que resolveu usar o aumentativo (“Ramalhão”) como citação. Me dá arrepios de imaginar se, lá pelos anos 30, algum mooquense resolvesse utilizar a expressão “Crespão” para apelidar o Juve. No clássico “Choque-Rei”, temos dois exemplos bem distintos. Menos para o falecido Nélson Rodrigues, o consenso geral aceita que o São Paulo é um “Tricolor”. Mas ao contrário de outros no Brasil, não há diferente maneira de denominá-lo. Por tudo o que este time ganhou, sinto uma estranha leviandade no ar ao perceber que um clube tão vencedor ao redor do globo não tem nenhum outro apelido, exceto o que faz a operação de soma de suas cores. Novamente comparando, não acharia nada adequado gritar no Setor 2 “Vamos bicolor!”, enquanto o pau estivesse quebrando a dois metros do alambrado. Há um oculto “Mais Querido” que era muito utilizado nos primórdios do São Paulo, e que traz consigo a intenção principal de seus fundadores em transformar o clube em um time ‘para todos os paulistanos’, que levava as cores e o nome do Estado, beirando à perfeição. Até meados dos anos 70, a torcida são-paulina não chegava nem perto dos dois grandes, e esta pequena e poderosa expressão hoje praticamente foi abandonada – talvez porque não sirva mais aos interesses. Pelos lados alviverdes, surge o grande oponente do Moleque Travesso: a “Academia”. O nome soa bem, o passado reserva ao menos cinco esquadrões que o honraram e a torcida leva-o na ponta da língua. Porém, como em outros casos, nem sempre o Palmeiras teve times de estilo acadêmico. Pelo contrário, a maior conquista de sua história foi com um time que era muito mais aguerrido, do que pomposo. Espero não estar vestindo com muita elegância as críticas que adoro tecer, não faz meu estilo. Enquanto isso, em Campinas, se apresenta um exemplo que chega a ser triste, de tão cômico – ou o inverso. O fato do Guarani, o “Bugre”, estar vivendo em 2008 o ano que pode decidir muita coisa importante em sua existência, me faz pensar na precária e agonizante situação de todas as tribos indígenas nacionais: sem lugar certo para viver (os verdes podem perder na Justiça a sua “oca”), perdendo identidade e força ao longo dos anos e tendo que deixar de conviver com sua vizinha “Macaca”, tudo pelo avanço da modernidade em seu meio ambiente. Voltando à terra das chaminés, vem se destacando o São Caetano (“Azulão”), que não chega nem perto do prêmio na categoria originalidade. O pássaro é belo, mas que caralho tem a haver com o futebol? Ah, sim, é pelo uniforme! Mas o fato de utilizar um animal, em especial neste caso, em que o mesmo em nada lembra o time, ou a cidade, me parece de muito mau gosto. Há tanta referência especial que poderia ser encaixada no cenário do ABC, que apontar uma espécie de voador como apelido foi, no mínimo, falta de imaginação. O mesmo descuido ocorreu em outros lugares com alguma fama pitoresca, como Itu, por exemplo. A cidade é nacionalmente conhecida pelos objetos em tamanho ampliado. Mas ao invés de um “Gigante”, que fosse, o time entrou na extensa fila dos galos interioranos. Aliás, por capricho do destino, felizmente não caímos nesta gama zoológica comum no Brasil – o que faz com o “Periquito” (ou mesmo o mais recente “Porco”) do Palmeiras fique para trás, juntamente com todos os urubus, coelhos, peixes, leões e até mesmo o “Papão da Curuzu”, que ultimamente, apesar do apelido interessante, tem digerido mais rebaixamentos do que taças, o que encurta a conversa. E por falar nos conterrâneos mais distantes, há apelidos muitos interessantes pelas bandas nacionais. Em especial na capital paranaense, com seus dois grandes clubes: Atlético e Coritiba. O primeiro sustenta a honra de “Furacão”, o que por si só fala tudo. Embora eu admita que há uns doze anos atrás, quando o rubro-negro jogava em seu velho e mágico estádio de madeira, o Atlético parecia mesmo um furacão, há algo de muito contraditório em seu apelido: fenômenos naturais como este sempre vencem tudo o que encontram pela frente – não há um furacão derrotado, senão por si próprio. E o Atlético Paranaense não é o que podemos chamar de gigante do futebol brasileiro, tendo logrado o título maior apenas uma vez. Tudo bem, o Juventus pode até passar cinco anos, ou mais, sem aprontar alguma travessura que chame atenção. Mas por isso mesmo somos um time pequeno, com obrigações de lutar, antes de vencer. Mas que seguramente, cedo ou tarde, vai aprontar novamente pra cima dos favoritos. Já o Coritiba é chamado de “Coxa Branca”, por influência de seus pálidos fundadores, que imigraram da Europa. Desta feita entramos em um assunto racial e o negócio fede. Se for levar à risca o nome, nenhum negro, mestiço, mulato, índio ou oriental poderia jogar ou torcer pelo Coritiba. Pessoalmente não acredito nisso, mas um debate como esse já desmoraliza, de certa forma, o apelido em questão. No Juve, por outro lado, um negro, branco, amarelo ou vermelho (menos um puto azul, por favor!) têm a obrigação de ser um Moleque Travesso. Pobre daquele que não for. Por mais que eu tente enganar meu coração - por um segundo de reflexão que seja – ele sempre me puxa de volta ao meu amor grená. Sei que no fundo tudo isso é um tiro de festim na visceral guerra da bola. Não há como a emoção ser ultrapassada pela razão no futebol, e nem quero que isso aconteça. Todo torcedor vai tentar convencer o adversário que a sua razão tem mais razão do que a do outro. Não importa se está baseado em um animal, numa cor ou em um personagem histórico. O simbolismo no futebol remete a paixões, e nela mora a fonte de onde bebemos. Então o símbolo em si não é o mais importante, e sim o que ele representa em campo. Um apático “Leão” vitorioso será sempre melhor do que uma charmosa “Feiticeira” derrotada. Isto não significa que concordo com os times que mudam seu uniforme, ou que sequer pintam seu estádio com as cores que defende – há limites até para a vagabundagem, e disso eu entendo e os cartolas não! Nesta semana catastrófica e empolgante, o Juventus terá que fazer jus, em campo, ao seu apelido: suportar a pressão, e segurar o resultado, contra o Náutico pela Copa do Brasil, para depois jogar sua vida no Estadual contra aquele que é apontado como o mais exemplar e cheiroso time do Brasil, necessitando somente a vitória no Morumbi para escapar, em absoluto, do rebaixamento. Tudo isso parece muita labuta para um time que foi confundido pelo seu xará mais famoso naquela emissora que mantém um ‘padrão de qualidade’, e minha cabeça não consegue parar de pensar em ti, meu querido “La Greca”. Parece até aquela preocupação que antecede uma operação médica delicada, ou um teste profissional. E, de repente, outro pensamento irrompe minha mente: não serão as duas coisas juntas, que sempre nos confrontam no futebol? Escrito por Blog do Tolengo às 22h42
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CONFRONTO ENTRE TORCIDAS Por Fernando Toro Um velho e conhecido trunfo cultural brasileiro, que andava esquecido e tão ausente nos últimos anos, vêem se transformando na mais eficaz munição da nojenta máquina registradora do futebol moderno: a torcida do Flamengo. Tem sido praticamente impossível atravessar uma semana sem se deparar com algum comentário nas ruas, ou visualizar uma matéria televisiva – talvez os dois – erguendo essa massa a uma altura celestial, imaculada, e fazendo de sua manifestação folclórica e colorida um comportamento obrigatório para todo o resto aplaudir e copiar. Não vejo problemas em excessos de elogios no futebol, até porque nunca vou cansar de mencionar os feitos de meus eternos ídolos. Mas porque será que somente esta torcida merece tamanha admiração? Afinal de contas, o que a torcida citada vem fazendo nos últimos meses é algo perfeitamente natural no Ceará, no Pará, em Dortmund, em Newcastle, em Istambul, Antes de continuar, devo deixar claro aqui que estamos falando de um pilar futebolístico deste país, de um clube centenário, vitorioso e que presenteou a todos com o maior jogador brasileiro da era moderna, Artur Antunes Coimbra, mais conhecido como Zico. E também não deixam de serem verdadeiros os comuns adjetivos referentes à festa rubro-negra, tais como “emocionante” e “barulhenta”. Apesar de o Maracanã, lamentavelmente, ter entrado para o grupo de estádios que perderam sua alma para a ganância de alguns, a torcida do Flamengo têm apresentado muita alegria e disposição nas arquibancadas. Sobre isto, não há argumentos contra. Porém me pergunto qual o grande mérito de promover uma festa tão volumosa em um momento de puro êxtase do time. Isto é romper a unanimidade, desequilibrar a normalidade? Parece-me mais um desabafo, um grito de vitória que andava enjaulado e amordaçado nos corações rubro-negros Brasil afora há muito tempo, e que agora está explodindo junto com o crescimento do time nas tabelas. É a síndrome do “engenheiro de obra feita”, que em nada combina com a luta que o futebol reclama de seus atores. É também compreensível tamanho entusiasmo, pois a historia recente desta camisa aponta uma série de temporadas fugindo de rebaixamentos, contratações desastrosas, escândalos de corrupção na diretoria e poucos títulos de expressão. O reflexo desta ultima década conturbada foi imediatamente percebido na sua torcida, que passou a comparecer em menor número e mais aparecia na mídia em dia de São Judas, o santo protetor do clube, acendendo velas e esperando por milagres do que incentivando o time. As constantes obras no gigante estádio municipal, costumeira e informal casa flamenguista, também não ajudaram No exato ano em que o Flamengo perdia aquela final e nenhuma melodia axé era ouvida após o jogo, o Grêmio, cujo passado também remete a importantes conquistas internacionais, sentia uma dor mais alucinante ainda, ao ser rebaixado para a segunda divisão nacional. E foi neste momento difícil que a torcida gremista chamou a atenção dos aficionados por futebol no Brasil, com verdadeiras demonstrações incondicionais de paixão ao clube, exatamente quando se esperava uma postura de protestos e certo abandono. Concordamos que toda torcida é apaixonada, e que em momentos ruins você tem que arrancar energia da mórbida inércia do fracasso. Isso aconteceu com o Palmeiras, Atlético Mineiro e até mesmo com o Botafogo carioca. Mas a torcida do Grêmio fez mais do que isso, causando um drástico impacto na maneira de torcer, inspirada nas torcidas sul-americanas, em especial as argentinas. Ademais as influências, que hoje são sentidas e vistas em diversos campos do país, a Geral mostrou ser possível interagir com a diretoria e atrair mais sócios para o clube, sem a necessidade de apelar para campanhas promocionais e burocráticas, valorizando a história da instituição esportiva e não da própria torcida, além de exibir homenagens a atletas e ex-atletas lembrados mais pelo poder de marcação do que pela habilidade em driblar e anotar gols – contrariando outra estúpida regra nacional. Na verdade, até a própria segunda divisão nacional, por fim, ganhou mais importância após toda a epopéia calorosa que a torcida gremista construiu naquele ano de 2005, coroada com um título inesquecível. Tudo isto não quer dizer que a torcida do Flamengo não é capaz de apoiar nos momentos ruins. Apenas simboliza o momento autônomo e delirante que um grupo de torcedores do sul concretizou - o que para muitos investidores do futebol moderno poderia significar um perigo sem precedentes, ou seja, o “faça você mesmo” batendo de frente com a “Torcida Nestlé”, ou o “Torcedor Família”. Torna-se, então, explícita e gritante a polarização entre estas duas torcidas, do Grêmio e a do Flamengo: uma acordou na derrota, a outra acordou na vitória. E somente este fato já deixa límpido para um amante do futebol, daquele que vive sua realidade nostálgica, que se há algo diferente borbulhando neste meio coagulado e demérito de elogios (da mídia inclusa) é a torcida gremista. Porém, ao assistir a anual retrospectiva esportiva da emissora de maior audiência do país, só havia uma torcida cujo espetáculo de sua mera presença no cimento do “maior do mundo” foi “impossível de se esquecer”. Nem é preciso dizer qual é essa torcida. O episódio do Olímpico foi despudoradamente ignorado. Senti naquele momento, à frente da “caixa idiota”, uma profunda lástima e a certeza de que o milagre da manipulação não é obra do acaso, ou de Deus, senão de alguns homens sobre uma mesa de edição espetada por bebidas energéticas. Estranho que tenho dedicado meus últimos vinte e três anos quase que exclusivamente ao futebol. E consegui tranquilamente esquecer-me das vezes que assisti a jogos do Flamengo ano passado. Do Grêmio, pelo contrário, tenho algumas imagens que nunca sairão da minha memória. Chego à conclusão - precipitada talvez; cautelosa pelo que já vi até hoje no futebol; odiosa porque não suporto mais essa realidade sangrenta - de que há mais porquês motivando esta nova versão da “Fla-Mania” do que simplesmente um deslumbre humano. Quem quer ver um estádio lotado e colorido no Brasil, basta ir ao Ba-Vi, o famoso clássico máximo da terra de Jorge Amado. Sinceramente, e mesmo vivendo a era dos estádios vazios no Brasil, não sinto meu coração surpreendido ao ver um jogo do “time do povo” Escrito por Blog do Tolengo às 19h22
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